SALINÓPOLIS: QUANDO A CIDADE VIRA DESTINO E O MORADOR VIRA SUPORTE.

QUEM FAZ A CIDADE? TURISMO, GENTRIFICAÇÃO E DIREITO À CIDADE
ARTIGO DE OPINIÃO
01/09/2026
Por Elinaldo Caldas e Wesley Ribeiro elinaldo@observatoriodasbaixadas.org.br; wesley.ribeiro72@hotmail.com
NOTA
O turismo transforma a maneira como diferentes sujeitos experimentam e se relacionam com o espaço urbano. Em Salinópolis, essa relação pode ser percebida nas formas de ocupação da orla, na valorização de determinados espaços, nos deslocamentos cotidianos e nas atividades que sustentam a experiência turística. Este artigo parte de uma experiência vivida como turista para refletir sobre essas relações e sobre os contrastes entre a cidade experimentada por quem chega e aquela vivida cotidianamente por quem nela trabalha e reside. Ao longo da reflexão, situações observadas durante a estadia são colocadas em diálogo com contribuições da Geografia sobre turismo, valorização do espaço, gentrificação, direito à cidade e territorialidade digital. Não se trata de explicar Salinópolis a partir de alguns dias de experiência, mas de refletir sobre o que essa experiência provocou ao olhar para a cidade para além da condição de visitante.

Salinópolis-PA entre dois territórios: o turismo e a vida cotidiana, paisagens que coexistem, mas revelam diferentes formas de viver o litoral..- Foto: Elinaldo Caldas/ Acervo pessoal
A CIDADE QUE O TURISTA VÊ
A cidade de Salinópolis-PA está situada no litoral nordeste paraense, e sua área urbana e orla somam cerca de 75,9 km², com uma população de aproximadamente 44.772 habitantes segundo o censo do IBGE 2022, uma densidade demográfica de 198,00hab/km² e um PIB per capita na casa dos R$ 17.919,4. O turismo ocupa lugar central na economia do município, impulsionado pelo potencial paisagístico das praias do Atalaia, Farol Velho, Maçarico e Corvina e por uma trajetória de investimentos públicos voltados à atividade turística.
Salinópolis é, antes de qualquer coisa, um produto. A afirmação pode parecer dura, mas talvez seja justamente por isso que precise ser feita. Há cidades que recebem turistas e há cidades que passam a organizar parte significativa de seu território para serem consumidas por eles. Salinópolis parece se aproximar cada vez mais dessa segunda condição. Desde a década de 1990, o poder público estadual e municipal concentrou investimentos em áreas estratégicas para o turismo, especialmente na orla e na praia do Atalaia, com o objetivo declarado de qualificar a cidade para essa atividade (Souza, 2014).
Não há problema, por si só, em investir no turismo. Ele gera renda, movimenta o comércio, cria postos de trabalho e coloca o município no circuito turístico regional. A questão começa quando a cidade que precisa ser atraente para quem chega por alguns dias passa a receber mais atenção do que a cidade que precisa funcionar para quem permanece nela durante todo o ano.
Foi a partir de uma experiência recente de poucos dias como turista que essa contradição começou a aparecer para mim. Eu não fui a Salinópolis para realizar uma pesquisa de campo. Não entrevistei moradores, não levantei preços, não mapeei deslocamentos e não coletei dados sobre a estrutura urbana. Fui como visitante. Mas foi justamente essa condição que me fez perceber algo que normalmente permanece fora do campo de visão de quem está ali apenas para aproveitar a praia.
A primeira cidade que encontrei foi aquela que todo turista conhece: a cidade da orla, dos restaurantes, dos hotéis, das pousadas, dos bares, do comércio, das praias e dos espaços preparados para receber quem chega. Uma cidade que se apresenta como destino. A paisagem, nesse contexto, não é apenas paisagem; ela também é mercadoria. A praia deixa de ser somente um lugar de convivência e passa a funcionar como um ativo capaz de atrair pessoas, investimentos e negócios. A proximidade do mar não significa apenas beleza, mas pode significar valorização imobiliária, oportunidade econômica e possibilidade de retorno financeiro.
A geografia urbana ajuda a compreender que esse processo não acontece naturalmente. O espaço é produzido de acordo com interesses, investimentos e disputas. Quando determinadas áreas recebem infraestrutura, equipamentos e investimentos que aumentam sua capacidade de atrair capital e consumidores, elas também podem adquirir um valor diferente daquele que tinham anteriormente.
É nesse sentido que Smith (1979, 1996) desenvolve o conceito de rent gap, relacionado à diferença entre a renda que um determinado espaço produz em seu uso atual e aquela que poderia ser obtida por meio de sua valorização e reinvestimento. A proximidade de uma área turística não significa automaticamente gentrificação, mas ajuda a compreender por que determinados lugares se tornam especialmente disputados pelo mercado.
A própria literatura sobre Salinópolis permite observar que essas transformações não são recentes nem fruto apenas da percepção de quem passa pela cidade.
Marinho (2009) relaciona a expansão urbana do município ao crescimento periférico, à segregação socioespacial e às transformações provocadas pelo avanço da urbanização voltada ao turismo e ao veraneio marítimo.
A expansão de áreas de vilegiatura, segundas residências e empreendimentos associados ao turismo também participa dessa transformação do território. A cidade que o turista vê, portanto, não surgiu pronta: ela foi produzida.
A CIDADE QUE O TURISTA NÃO VÊ
O problema é que uma cidade produzida para ser consumida também precisa ser produzida por alguém. O hotel precisa de quem limpe os quartos; o restaurante precisa de quem cozinhe e sirva; o comércio precisa de quem venda; os espaços turísticos precisam de trabalhadores que construam, mantenham e organizem aquilo que o visitante experimenta como lazer. O turismo não é sustentado apenas pela paisagem. É sustentado por trabalho. Mas onde vivem essas pessoas?
Essa foi uma das perguntas que começaram a surgir durante a experiência. Nas áreas residenciais mais afastadas da orla, a percepção é de um custo de vida diferente daquele encontrado nos espaços diretamente associados ao turismo. Não é possível, a partir de alguns dias de observação, estabelecer uma relação geral entre localização da moradia e ocupação profissional. Mas é possível perceber uma contradição espacial que merece ser questionada: os espaços mais valorizados para o visitante não são necessariamente os espaços mais acessíveis para quem precisa morar na cidade.
A distância, nesse caso, não é apenas geográfica. Ela pode significar tempo, dinheiro e desgaste, além de produzir uma cidade dividida entre aqueles que chegam para consumir e aqueles que precisam atravessá-la todos os dias para trabalhar. A ausência de um sistema de transporte público urbano estruturado aparece, nesse contexto, como uma questão ainda mais importante. Não seria correto afirmar, apenas a partir dessa experiência, que essa ausência seja diretamente causada pelas políticas de urbanização turística. Mas é legítimo questionar um modelo urbano que conseguiu produzir investimentos e infraestrutura para tornar determinados espaços cada vez mais atrativos ao visitante, enquanto a circulação cotidiana de quem vive e trabalha no município parece ocupar uma posição secundária.
Não adianta construir uma cidade excelente para o turista se o trabalhador precisa enfrentar dificuldades para chegar até o lugar onde esse turista será atendido. Essa não é uma oposição entre turismo e população local, mas uma questão de prioridade urbana. Uma cidade turística precisa do turista, mas o turista não precisa permanecer ali o ano inteiro para que sua presença seja considerada. O morador precisa.
É nesse ponto que a discussão sobre direito à cidade ganha força. Para Lefebvre (2001), o direito à cidade não pode ser reduzido ao simples acesso físico aos equipamentos urbanos; ele envolve a possibilidade de apropriação da cidade e de participação em sua produção. A pergunta, portanto, não é apenas quem consegue chegar a Salinópolis, mas quem consegue viver, circular, trabalhar e usufruir plenamente da cidade que está sendo produzida.
A CIDADE QUE SE RELACIONA
É importante não transformar essa reflexão em uma oposição simplista entre turista e morador. O turista também tem direito de conhecer a praia, frequentar restaurantes, hospedar-se, consumir e aproveitar aquilo que Salinópolis oferece. Além disso, sua presença movimenta a economia local e sustenta uma série de atividades das quais dependem trabalhadores e comerciantes. O problema não é o turista. O problema aparece quando a cidade passa a ser pensada prioritariamente a partir daquilo que pode oferecer ao turista, enquanto as necessidades daqueles que vivem nela são tratadas como secundárias.
Essa diferença muda completamente a discussão. A questão não é retirar o turista da cidade, mas perguntar que cidade está sendo oferecida a ele e que cidade está sendo oferecida ao morador. Se a orla recebe investimentos porque pode gerar retorno econômico, isso não significa necessariamente que esses investimentos sejam ruins. Mas uma política urbana comprometida com o direito à cidade precisa perguntar se os benefícios e os custos dessa valorização são distribuídos de maneira minimamente justa.
É nesse ponto que a ideia de turistificação se torna útil. Não se trata simplesmente da existência de turismo, mas do processo pelo qual determinados lugares passam a ser transformados, apropriados e organizados cada vez mais segundo as necessidades da atividade turística. Salinópolis é um exemplo interessante justamente porque a turistificação não acontece sobre um espaço vazio. Ela acontece sobre uma cidade que já existia, sobre territórios de moradia, trabalho, pesca, comércio e relações sociais.
Adrião (2006) demonstra como o avanço do veraneio e do turismo balnear produziu mudanças nas relações de trabalho e na organização social das famílias de pescadores em Salinópolis. Santos e Costa (2024), ao analisarem o turismo de veraneio no Salgado paraense, também identificam em Salinópolis características mais segregadoras do que em municípios como Curuçá. A questão, portanto, não é perguntar se o turismo transforma a cidade. Ele transforma. A questão é perguntar como se transforma, para quem transforma e quem consegue participar dessa transformação.
QUANDO A DISTÂNCIA VIRA PREÇO
Durante a estadia, um episódio aparentemente banal acrescentou outra camada à reflexão. Ao pedir comida por um aplicativo de entrega, eu já esperava pagar mais caro. Estava em uma área turística, próxima à orla, onde hospedagens, restaurantes e outros serviços tendem a incorporar ao preço o próprio valor turístico do lugar. A expectativa, portanto, não era de encontrar um preço semelhante ao que seria praticado em uma área residencial mais afastada. O que eu não havia pensado, naquele momento, era que a lógica daquele preço não se encerrava na experiência de quem estava ali como turista.
A taxa de entrega foi de vinte reais para uma distância de aproximadamente dois quilômetros. Inicialmente, isso poderia ser interpretado apenas como mais um custo associado à experiência turística. A reflexão veio depois: quem mora em Salinópolis e pede comida pelo mesmo aplicativo também paga essa taxa? Se paga, então aquele custo não é exclusivamente uma característica da experiência turística ou da área turística. Ele atravessa a cidade e alcança também quem vive nela cotidianamente.
É nesse momento que a experiência deixa de ser apenas uma observação sobre preços e passa a levantar uma questão sobre a produção contemporânea do território. Eu esperava que a lógica espacial do turismo se manifestasse também na entrega: um serviço mais caro porque estava sendo solicitado em uma área turística. A plataforma, entretanto, introduzia outra lógica. Ela não precisava distinguir, para efeito daquela cobrança, entre o turista hospedado próximo à orla e o morador que vive naquela mesma área. A tarifa era produzida digitalmente a partir da relação estabelecida entre pontos, distância e rota, segundo critérios que não são inteiramente visíveis para quem utiliza o serviço.
Essa percepção dialoga com estudos recentes sobre plataformas digitais e uso do território. Ferreira e Silva (2024), ao analisarem a atuação do iFood em Campos dos Goytacazes, demonstram que a plataforma não funciona apenas como uma ferramenta neutra de intermediação entre consumidores e estabelecimentos, mas participa da organização dos fluxos e das relações espaciais. Guide (2024), ao discutir a expansão territorial dos serviços de entrega mediados por aplicativos no Brasil, também chama atenção para a ação dessas plataformas como infraestruturas sociotécnicas articuladas às condições e aos usos do território.
Isso não significa que a plataforma elimine a territorialidade física produzida pelo turismo. Ela sobrepõe a esse território uma outra lógica de organização espacial. A cidade continua marcada por diferenças materiais entre a orla turística e as áreas residenciais, mas a plataforma acrescenta uma camada na qual localização, distância, circulação e consumo são convertidos em dados e valores. A distância física continua existindo, mas passa a ser operacionalizada por uma relação digital que pode atravessar as distinções espaciais percebidas pelo usuário.
É nesse sentido que a experiência permite pensar a territorialidade digital. Não como substituição do território físico, nem como algo que uma única experiência seja capaz de comprovar, mas como uma camada de relações espaciais mediadas por plataformas.
A territorialidade digital pode ser entendida, nesse caso, como uma forma de organizar e mediar relações entre lugares por meio de dados, localização, rotas e algoritmos, sobrepondo-se às territorialidades sociais e econômicas já existentes. A discussão sobre plataformas e dataficação do território aponta justamente para a crescente participação de empresas de plataforma na organização de fluxos, informações e usos territoriais (Silva; Araujo; Biazotto, 2025).
A plataforma não deixa de depender das ruas, das distâncias e da infraestrutura urbana; ela reorganiza digitalmente a maneira como essas condições são utilizadas e transformadas em valor. Nesse sentido, a digitalização não representa o desaparecimento do território, mas a incorporação de novas formas de mediação sobre ele. Santos (2025), ao discutir redes geográficas e digitalização do território, contribui para compreender como as plataformas digitais passam a participar da organização das redes e dos fluxos, articulando dimensões materiais e digitais do espaço.
Essa sobreposição também produz experiências distintas do mesmo espaço. Para quem consome, vinte reais aparecem como um custo adicional. Para quem entrega, os dois quilômetros são percurso, tempo, trabalho e renda. Para o morador, aquela mesma distância pode representar uma necessidade cotidiana de deslocamento. Para o turista, pode ser apenas uma variável incorporada ao custo de uma experiência de consumo. O território é o mesmo, mas as formas de acessá-lo, percebê-lo e transformá-lo em valor são diferentes.
Por isso, aquele pedido de comida não comprova uma regra sobre os preços de Salinópolis, nem permite afirmar como funciona o algoritmo da plataforma. Ele produz, porém, uma pergunta geográfica mais ampla: quando uma plataforma digital organiza a relação entre lugares, ela está apenas mediando deslocamentos dentro de um território já existente ou também está produzindo uma nova camada de territorialidade sobre ele?
A questão se torna ainda mais relevante quando pensamos no trabalhador que realiza a entrega. Para quem pede, vinte reais podem ser apenas uma taxa inesperada; para quem entrega, os dois quilômetros representam deslocamento, tempo de trabalho e renda. A plataforma conecta esses sujeitos ao mesmo espaço por meio de uma lógica digital, mas eles ocupam posições completamente diferentes dentro dele. A atuação das plataformas pode, inclusive, reforçar desigualdades e centralidades territoriais já existentes, como demonstrado por Ferreira e Silva (2024) em sua análise sobre o iFood.
Nesse sentido, a territorialidade digital não deve ser entendida como uma ruptura completa com a geografia física, mas como uma sobreposição de novas formas de mediação e valorização do espaço. A turistificação organiza determinados lugares para o consumo do visitante; as plataformas, por sua vez, acrescentam outra camada de relações, convertendo localização, distância e circulação em informações que podem ser operacionalizadas economicamente. A cidade turística continua sendo física, social e desigual, mas passa também a ser calculada, conectada e tarifada digitalmente (Silva; Araujo; Biazotto, 2025).
É justamente essa sobreposição que o episódio dos vinte reais tornou visível. Eu havia chegado à cidade pensando como turista sobre o preço de estar em uma área turística. Só depois percebi que aquela mesma lógica de cobrança também poderia alcançar quem vive ali. O questionamento, portanto, deixou de ser apenas quanto custa consumir Salinópolis como visitante e passou a ser como diferentes lógicas de produção e mediação do espaço interferem na experiência de quem visita e de quem vive a cidade.
QUEM FAZ A CIDADE?
Depois de alguns dias, a pergunta deixou de ser apenas o que Salinópolis oferece ao turista. Passou a ser: quem faz Salinópolis funcionar?
São os pescadores que tiveram seu modo de vida transformado pelo avanço do veraneio e do turismo balnear (Adrião, 2006). São os trabalhadores dos hotéis, restaurantes e pousadas; os vendedores informais que comercializam iguarias regionais e artesanato; os trabalhadores responsáveis pela limpeza, manutenção, construção e funcionamento dos espaços turísticos; os moradores que precisam se deslocar diariamente para sustentar a economia da cidade; e os entregadores que percorrem as ruas para fazer circular mercadorias. São pessoas que muitas vezes aparecem pouco na imagem que o turista leva para casa, mas sem as quais essa imagem não existiria.
É nesse sentido que Salinópolis pode ser pensada a partir do direito à cidade. Não porque seja possível afirmar, a partir de uma experiência individual, que determinado grupo foi privado desse direito, mas porque a própria organização da cidade provoca uma questão sobre quem pode usufruir dos espaços valorizados, quem pode permanecer neles e quem participa das decisões sobre como esses espaços são produzidos.
A cidade não é feita apenas de prédios, ruas, praias e hotéis. É feita por relações sociais, e quem trabalha para que a cidade funcione também produz a cidade.
Por isso, talvez seja insuficiente pensar a urbanização turística apenas como uma estratégia de desenvolvimento econômico. É preciso perguntar qual cidade está sendo produzida por essa estratégia. Uma cidade pode aumentar sua capacidade de receber visitantes e, ao mesmo tempo, continuar apresentando dificuldades para quem precisa morar, trabalhar e circular nela.
Essa é a contradição que mais me chamou atenção.
Eu fui a Salinópolis como turista. Queria conhecer a praia, circular pela orla, comer, descansar e aproveitar o destino. E não há nada de errado nisso. O turismo também é uma forma legítima de uso da cidade e uma atividade importante para a economia local. Mas, ao olhar um pouco além da experiência turística, tornou-se impossível não perceber que existe outra cidade funcionando ao mesmo tempo: uma cidade que trabalha enquanto o turista descansa, que se desloca para que o visitante possa permanecer e que sustenta a experiência que o turista compra.
A SALINÓPOLIS PARA VISITAR E A SALINÓPOLIS PARA SE VIVER
Talvez o principal aprendizado de alguns dias em Salinópolis tenha sido justamente esse deslocamento do olhar. Cheguei interessado na paisagem e saí pensando na cidade. A praia continua bonita e o turismo continua sendo importante para a economia do município. Nada disso precisa ser negado para que se faça uma crítica.
A questão é outra: uma cidade turística não pode ser pensada apenas como destino. Ela também precisa ser pensada como lugar de vida. O turista tem direito de visitar Salinópolis, mas o morador também tem direito de viver Salinópolis. Esses direitos não deveriam ser tratados como incompatíveis.
O problema começa quando o direito de consumir a cidade passa a orientar sua produção mais do que o direito de quem precisa viver nela. Quando a praia precisa estar pronta, mas o trabalhador não consegue chegar até ela com facilidade. Quando o espaço recebe valor porque pode gerar renda, mas aqueles que dependem dele para morar precisam procurar lugares cada vez mais acessíveis. Quando a cidade é preparada para quem chega durante alguns dias, mas as necessidades de quem permanece durante o ano inteiro parecem ficar em segundo plano.
Por isso, a pergunta que fica não é se Salinópolis deve receber turistas. Deve. A pergunta é outra: que cidade estamos construindo para recebê-los? E, principalmente, que cidade estamos construindo para aqueles que fazem essa experiência turística existir?
Talvez reconhecer essas pessoas seja o primeiro passo para deslocar o olhar do consumo da paisagem para a produção cotidiana do espaço urbano. Porque Salinópolis não é apenas aquilo que o turista vê. É também aquilo que o morador vive. E uma cidade que quer ser destino precisa, antes de tudo, continuar sendo cidade para quem a sustenta todos os dias.
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REFERÊNCIAS
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FERREIRA, Nágila da Silva; SILVA, Silvana. Território e digitalização: a ação do iFood em Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro, Brasil. Geografares, Vitória, n. 38, 2024. DOI: 10.47456/geo.v4i38.43085. Disponível em: https://www.portaldepublicacoes.ufes.br/geografares/article/view/43085. Acesso em: 7 ago. 2026.
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