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QUEM GORVENA A NOSSA PÁTRIA?

Foto do escritor: Observatório das Baixadas
Observatório das Baixadas
8 de out.
9 min de leitura

Atualizado: 9 de out.

Uma análise dos partidos que mais governaram o país desde a redemocratização.

PESQUISA

08/10/2026

NOTA 

A análise do Observatório das Baixadas examina 488.659 mandatos eletivos no Brasil entre 1994 e 2026, com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e em uma classificação ideológica de partidos políticos. Os resultados indicam que a esquerda ocupou 17,8% dos mandatos, enquanto o campo da direita, incluindo centro-direita e extrema-direita, concentrou 77,9%. O Centrão, formado por partidos de perfil predominantemente pragmático, respondeu por 59,9% do total.

O estudo demonstra que, embora a esquerda tenha ocupado a Presidência da República durante aproximadamente 18 dos últimos 32 anos, nunca foi maioria no conjunto dos cargos eletivos analisados. A pesquisa destaca, assim, o peso do Congresso Nacional, dos governos estaduais e das prefeituras na estrutura de poder brasileira. Também reconhece limitações metodológicas, como lacunas nos dados eleitorais e diferenças entre a classificação ideológica dos partidos e o comportamento efetivo de seus representantes.

Palavras-chave: poder político; representação política; ideologia partidária; esquerda e direita; eleições no Brasil; redemocratização; mandatos eletivos; distribuição do poder; democracia brasileira; Tribunal Superior Eleitoral (TSE).


NOTE 

This analysis by Observatório das Baixadas examines 488,659 elected mandates in Brazil between 1994 and 2026, drawing on data from the Superior Electoral Court (TSE) and an academic classification of political parties by ideology. The findings show that left-wing parties accounted for 17.8% of elected mandates, while the broader right-wing spectrum, including the center-right and far right, held 77.9%. The Centrão, a bloc of predominantly pragmatic parties, accounted for 59.9% of all mandates.

Although the left held the presidency for approximately 18 of the past 32 years, it never secured a majority across the elected offices analyzed. The study highlights the importance of Congress, state governments, and municipal administrations in shaping Brazil’s political landscape. It also acknowledges methodological limitations, including gaps in electoral data and the distinction between parties’ ideological classifications and the actual political behavior of their elected representatives.

Keywords: Political power; political representation; party ideology; left and right in politics; Brazilian elections; redemocratization; distribution of political power; elected offices; Brazilian democracy; Superior Electoral Court (TSE).


NOTA 

El análisis del Observatório das Baixadas examina 488.659 mandatos electivos en Brasil entre 1994 y 2026, a partir de datos del Tribunal Superior Electoral (TSE) y de una clasificación académica de los partidos políticos según su orientación ideológica. Los resultados indican que la izquierda ocupó el 17,8 % de los mandatos, mientras que el espectro de la derecha, incluida la centroderecha y la extrema derecha, concentró el 77,9 %. El Centrão, un bloque integrado por partidos de perfil predominantemente pragmático, representó el 59,9 % del total.

Aunque la izquierda ocupó la Presidencia de la República durante aproximadamente 18 de los últimos 32 años, nunca obtuvo la mayoría del conjunto de cargos electivos analizados. El estudio destaca la importancia del Congreso Nacional, los gobiernos estatales y las administraciones municipales en la estructura del poder político brasileño. Asimismo, reconoce limitaciones metodológicas, como las lagunas en los datos electorales y las diferencias entre la clasificación ideológica de los partidos y el comportamiento político efectivo de sus representantes.

Palabras clave: Poder político; representación política; ideología de los partidos políticos; izquierda y derecha en la política; elecciones brasileñas; redemocratización; distribución del poder político; cargos electivos; democracia brasileña; Tribunal Superior Electoral (TSE).


PARTE 01


Os números ajudam a enxergar a política brasileira para além dos discursos e das disputas eleitorais. Ao observar quem ocupa os espaços de poder, é possível questionar explicações simplificadas sobre os rumos do país e compreender melhor como a representação política se distribui. Este levantamento propõe justamente esse olhar: colocar os dados em perspectiva e abrir espaço para uma discussão mais ampla sobre poder, responsabilidade e os caminhos da democracia brasileira.


Todos os 488.659 mandatos eleitos entre 1994 e 2026 — de vereador a governador, em todo o país — enquadrados pela orientação ideológica de seus partidos. A pergunta é direta: o Brasil é governado pela esquerda desde a redemocratização?


A afirmação que se pretende testar

Diz-se com frequência que a esquerda governou o Brasil desde a redemocratização e, nesse percurso, “quebrou o país”. A frase contém uma afirmação empírica que pode ser verificada: a de que o poder político brasileiro esteve, nesse período, nas mãos da esquerda.


Essa afirmação costuma se apoiar em um único cargo — a Presidência da República. Mas governar um país não é ocupar um cargo. É aprovar orçamentos, emendas constitucionais, reformas tributárias e trabalhistas; é comandar 27 governos estaduais e mais de 5,5 mil prefeituras, que executam diretamente saúde, educação básica, saneamento, habitação e assistência social. Nenhuma dessas coisas se decide sozinha no Palácio do Planalto.


Então a pergunta correta não é quem ganhou a eleição presidencial. É: quem ocupou, de fato, o conjunto dos cargos eletivos do Estado brasileiro? É isso que os dados do TSE permitem responder, mandato por mandato, de 1994 a 2026.


Como a conta foi feita


O universo. Todos os candidatos com situação de eleito — “Eleito”, “Eleito por QP” e “Eleito por Média” — nos seis cargos do Repositório de Dados Eleitorais do TSE: governador, senador, deputado federal, deputado estadual/distrital (séries 1994–2026), prefeito e vereador (séries 1996–2024). Total de 488.659 mandatos.


O enquadramento. Cada um dos 61 registros de sigla foi ligado a um escore ideológico de 0 (extrema-esquerda) a 10 (extrema-direita), medido pelo survey de 519 cientistas políticos de Bolognesi, Ribeiro & Codato (2023), com os pontos de corte dos próprios autores. Siglas extintas, renomeadas ou fundidas receberam o escore de sua linhagem direta — PFL→DEM, PMDB→MDB, PPR→PPB→PP, PL→PR→PL, PPS→Cidadania, PRB→Republicanos, PTN→Podemos, PT do B→Avante, PTC→Agir, PMN→Mobiliza, PSDC→DC, PMB→Democrata. Quatro siglas sem linhagem no survey (PST, PGT, PRONA, Missão) receberam escore estimado e respondem por 0,17% do total — 813 mandatos.


Os blocos. Campo da esquerda = escore abaixo de 4,5. Centro = de 4,5 a 5,5 (a faixa de centro dos próprios autores). Campo da direita = acima de 5,5. O desenho completo, a tabela sigla por sigla e os testes de robustez estão no método, ao fim.


Achado 1


Em três décadas, o campo da esquerda nunca chegou a um quarto dos mandatos


O gráfico abaixo não mostra eleições: mostra mandatos em exercício. Para cada ano entre 1997 e 2026, somamos todos os cargos eletivos vigentes naquele ano — os governadores e parlamentares eleitos no pleito geral anterior, os prefeitos e vereadores eleitos no pleito municipal anterior, as duas coortes do Senado. São entre 59 mil e 68 mil mandatos simultâneos. É a fotografia mais completa possível de quem ocupava o Estado brasileiro em cada ano.

A série começa em 13,6% em 1997 e termina em 16,4% em 2026. O pico foi em 2013, durante o primeiro governo Dilma, com 23,8% — pouco menos de um quarto. O campo da direita nunca esteve abaixo de 70,4% em nenhum ano da série.


Em outras palavras: no melhor momento da sua história eleitoral, a esquerda brasileira ocupava aproximadamente um em cada quatro cargos eletivos do país. Em nenhum outro ano da série chegou perto disso.


Uma ressalva de leitura que vale para este gráfico e para todos os seguintes: “campo da direita” é um campo, não um partido. Ele reúne tudo o que a escala situa acima de 5,5 — do MDB ao Novo, do PSDB ao PL —, legendas com programas bastante diferentes entre si. Dizer que esse campo tem 77,9% dos mandatos é uma afirmação sobre o conjunto, não sobre nenhuma delas. Quem manda dentro desse campo é o assunto do Achado 4.


Achado 2


Nenhum cargo, em nenhuma esfera, foi majoritariamente de esquerda

Desagregando por cargo, o padrão se repete em todos eles. O cargo em que a esquerda chegou mais longe no acumulado do período é o de governador, com 30,5%. O mais distante é o de prefeito, com 17,0% — e é justamente no poder municipal que está a imensa maioria dos cargos.


Tabela 1 · Composição por cargo, 1994–2026

Vale registrar o que esse quadro significa em termos de arquitetura institucional. Para aprovar uma emenda constitucional são necessários 308 votos na Câmara e 49 no Senado. Na legislatura que começa em 2027, o campo da esquerda terá 116 dos 513 deputados e 15 dos 81 senadores. Nenhuma reforma estrutural jamais foi aprovada no Brasil sem os votos do campo da direita — porque nunca houve como.


Achado 3


O pico foi entre 2010 e 2014 — e já passou

A trajetória tem forma de arco. A esquerda cresce de 1994 até o começo dos anos 2010, atinge o máximo em 2010 para Senado, Câmara e assembleias, em 2012 para prefeituras e câmaras municipais e em 2014 para governos estaduais, e recua desde então. Em 2026 está de volta ao patamar da segunda metade dos anos 1990 — e, no caso dos governos estaduais, abaixo dele.

Tabela 2 · O melhor resultado histórico da esquerda em cada cargo. O recorde absoluto de toda a série, em qualquer cargo e qualquer ano, são os 12 de 27 governos estaduais eleitos em 2014: 44,4%. Nas 52 combinações de cargo e eleição que compõem a base, o campo da esquerda passou dos 40% exatamente duas vezes — ambas em governos estaduais, em 2010 (40,7%) e em 2014. Nunca passou dos 50%.


Achado 4


Dentro do campo da direita, um bloco responde por três quartos: o centrão

Este achado não compete com os dois primeiros — ele abre o retângulo maior. Os Achados 1 e 2 mediram um campo: todo partido acima de 5,5 na escala. Resta a pergunta de quem manda dentro dele.


A resposta é o conjunto de legendas que a literatura chama de centrão — partidos de perfil pragmático, orientados à ocupação de cargos e à barganha orçamentária mais do que a um programa. Pela identificação feita por survey de especialistas em 2022 — PP, Republicanos/PRB, PL/PR, PTB/PRD, Patriota, MDB/PMDB, União Brasil (com DEM/PFL e PSL, suas origens), Podemos/PTN e PSD — esse grupo responde por 59,9% de todos os mandatos eleitos no Brasil desde 1994.


E aqui está o ponto que os dois números esclarecem quando postos lado a lado: todos os 292.519 mandatos do centrão estão dentro do campo da direita. Não é um bloco ao lado dele — é 77% dele. O campo da direita, na prática, é o centrão mais o PSDB, mais uma cauda de legendas pequenas.


Lido assim, o quadro deixa de ter duas respostas concorrentes e passa a ter uma só, em dois níveis: o Estado brasileiro é ocupado por um campo de centro-direita a direita, e a parte majoritária desse campo não é programática — é o centrão.


Isso levanta de imediato a pergunta mais difícil desta análise: faz sentido chamar de “direita” um bloco cuja marca registrada é a ausência de programa? É a objeção mais séria que se pode fazer ao enquadramento, e ela tem uma seção inteira mais adiante — “O centrão é direita?”.

O centrão oscila entre 51,6% e 69,7% dos mandatos em exercício, e está hoje no ponto mais alto da série. Nenhum governo brasileiro desde 1994 — de FHC a Lula, de Dilma a Bolsonaro — governou sem coalizão com esse grupo. Essa é a restrição estrutural da política brasileira, e ela não é de esquerda.


O ranking das legendas que mais elegeram no período torna a desproporção difícil de ignorar.

O MDB sozinho elegeu 78.964 mandatos — equivalente a 91% de todo o campo da esquerda somado (86.944 mandatos, PT, PDT, PSB, PCdoB, PSOL e os partidos comunistas juntos). PSDB e a linhagem PFL→DEM→União Brasil, somados, elegeram 102.669 mandatos: mais do que toda a esquerda brasileira reunida em 32 anos.


Tabela 3 · As 28 linhagens partidárias que mais elegeram


Achado 5


O centro de gravidade do país é de centro-direita — e nunca saiu de lá

Em vez de blocos, é possível medir a posição média. Atribuindo a cada eleito o escore ideológico de seu partido na escala de 0 a 10, a média de todos os eleitos em cada eleição descreve o centro de gravidade ideológico do Estado brasileiro.


A série vai de 6,69 em 1994 a 6,52 em 2026, com mínimo de 6,03 em 2010 — o ano mais à esquerda de toda a redemocratização. Esse mínimo está acima do limite superior da faixa de centro. Em nenhuma eleição dos últimos 32 anos o conjunto dos eleitos brasileiros chegou sequer ao centro da escala, muito menos à esquerda dela.

Atenção a uma armadilha de leitura aqui: a faixa chamada “Direita” neste gráfico é mais estreita que o “campo da direita” dos achados anteriores. Ela cobre apenas os escores de 7,01 a 8,5; o campo cobre tudo acima de 5,5, somando centro-direita, direita e extrema-direita. Por isso os dois números diferem: a faixa tem 59,6% e o campo, 77,9%.


Ainda assim, essa faixa isolada concentra quase três quintos de todos os mandatos do país — é nela que estão MDB, PSDB, PSD, PP, PL e Podemos. As faixas de esquerda e extrema-esquerda juntas somam 6,8%.


Cargo por cargo

As seis séries, cada uma no seu calendário eleitoral próprio. Cargos gerais — governador, senador, deputado federal e estadual — são disputados em anos pares não múltiplos de quatro a partir de 1994; prefeitos e vereadores, a partir de 1996.


Continua - PARTE 02

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