OS MAIS IMPACTADOS POR TEMPESTADES ATÉ ABRIL 2025
- Observatório das Baixadas

- 14 de mai. de 2025
- 3 min de leitura
PESQUISA
Observatório das Baixadas pontua que tempestades intensas agravaram desigualdades socioambientais no Brasil no início de 2025
Texto adaptado por Juliane Castro

Entre janeiro e abril de 2025, o Brasil atravessou o período mais intenso da sua estação chuvosa, registrando uma série de tempestades severas em diferentes regiões do país. Uma análise desenvolvida pelo Observatório das Baixadas, com base em dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), revelou não apenas a frequência desses eventos extremos, mas também como seus impactos estiveram profundamente ligados às desigualdades sociais e territoriais.
O estudo analisou informações de 566 estações meteorológicas ativas entre 1º de janeiro e 1º de abril de 2025. Foram consideradas tempestades os eventos em que ocorreram simultaneamente chuvas intensas — acima de 20 mm por hora — e rajadas de vento superiores a 10 m/s. A partir desses critérios, os pesquisadores identificaram episódios com potencial significativo de danos urbanos e ambientais.
Para classificar a intensidade das tempestades, o Observatório aplicou uma metodologia própria, utilizando scripts em Python e ponderando os dados de precipitação (70%) e velocidade do vento (30%). Os resultados foram normalizados e organizados em cinco níveis de gravidade, variando de “moderadamente alto” a “crítico”. A visualização final foi produzida em linguagem R, permitindo identificar com clareza as áreas mais afetadas.
Apesar da abrangência da análise, os pesquisadores destacaram limitações importantes. As estações do INMET cobriram menos de 10% dos municípios brasileiros, o que impediu uma identificação precisa das comunidades mais impactadas. Ainda assim, o estudo apontou uma tendência clara: as populações mais vulneráveis foram as mais afetadas.
Regiões de baixadas, favelas e periferias urbanas concentraram os maiores impactos, em grande parte devido à ausência de infraestrutura de prevenção. Nesses territórios, as tempestades resultaram não apenas em danos materiais, mas também em perdas financeiras, riscos biológicos e impactos psicológicos duradouros.
A análise também dialogou com o conceito de racismo ambiental, que descreveu como populações negras, indígenas e de baixa renda foram desproporcionalmente expostas a riscos ambientais. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base no Censo 2022, indicaram que pretos, pardos e indígenas representaram cerca de 73,27% da população em comunidades urbanas no Brasil — justamente os territórios mais vulneráveis a eventos extremos.

Em termos territoriais, a sobreposição entre áreas de risco geohidrológico e regiões com maior concentração dessas populações evidenciou um padrão de desigualdade. Com exceção de algumas regiões específicas, como partes do sul do país, os dados indicaram que quanto maior a presença de populações negras e indígenas, maior foi a vulnerabilidade socioambiental. Além disso, o estudo incorporou dados sobre risco geohidrológico, que indicaram as áreas mais suscetíveis a inundações, enxurradas e deslizamentos. Esses territórios coincidiram, em grande medida, com regiões historicamente negligenciadas pelo poder público.
A dimensão de gênero também foi destacada. Segundo a ONU Mulheres, mulheres, especialmente negras e indígenas, estiveram entre as mais impactadas pelas mudanças climáticas, devido a fatores sociais, econômicos e estruturais que ampliaram sua vulnerabilidade.

Mesmo em locais que não aparecem diretamente nos dados meteorológicos, os impactos foram sentidos de forma intensa. É o caso da comunidade do Coroadinho, em São Luís, considerada uma das maiores favelas do país. A liderança comunitária Jú do Coroadinho relatou o agravamento da situação:
“A gente entende que nossa comunidade vem sofrendo com as injustiças climáticas, e que precisamos buscar soluções” pontua.
A ausência dessa comunidade nos dados do INMET reforçou uma crítica central da pesquisa: a falta de produção de dados com participação direta das comunidades afetadas. Para Waleska Queiroz, cofundadora do Observatório das Baixadas, esse vazio estatístico fez parte do problema:
“Esse é um dos grandes motivos do porquê o Observatório desenvolve tecnologias como o Atlas das Baixadas. O poder público geralmente não produz dados com as comunidades, mas elas sempre estiveram lá, prontas para contribuir” relata Waleska.
A análise concluiu que, embora os dados meteorológicos tenham permitido mapear a intensidade das tempestades, eles não foram suficientes para capturar a totalidade dos impactos sociais. Ainda assim, o estudo evidenciou que eventos climáticos extremos, longe de serem apenas fenômenos naturais, revelaram e aprofundaram desigualdades históricas no Brasil.
Ao longo do período analisado, ficou evidente que os efeitos das tempestades não foram distribuídos de forma igual. Eles seguiram padrões sociais já conhecidos, atingindo com mais força aqueles que historicamente tiveram menos acesso a infraestrutura, proteção e políticas públicas.
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