CLIMA E TRABALHO NO BRASIL
- Observatório das Baixadas

- 5 de jun.
- 3 min de leitura
Atualizado: há 6 dias
Justiça Climática
Calor extremo expõe trabalhadores brasileiros e amplia debate sobre saúde e jornada de trabalho
[Clima e Trabalho]
NOTA
O agravamento das mudanças climáticas tem intensificado a ocorrência de ondas de calor em diferentes regiões do Brasil, produzindo impactos diretos sobre a saúde e as condições de trabalho de milhões de pessoas. Trabalhadores expostos a ambientes externos ou com pouca proteção térmica enfrentam riscos crescentes de adoecimento, acidentes e perda da qualidade de vida. Este artigo discute os efeitos do calor extremo sobre o trabalho no Brasil, destacando desigualdades socioeconômicas, impactos na saúde laboral e debates recentes sobre a redução da jornada de trabalho como medida de adaptação climática.
Milhões de trabalhadores brasileiros estão na linha de frente da emergência climática. Expostos diariamente a temperaturas cada vez mais elevadas, esses profissionais enfrentam condições que combinam exaustão física, adoecimento e risco de morte durante o exercício de suas atividades. O fenômeno atinge de forma desigual a população, com maior incidência sobre trabalhadores negros, periféricos e inseridos em ocupações informais.
Dados recentes indicam um agravamento do problema. Entre 2022 e 2024, as denúncias relacionadas ao trabalho sob calor extremo triplicaram no país, com projeções que apontam para um aumento de até 500% até 2025. O avanço das ondas de calor, intensificadas pelas mudanças climáticas, têm impacto direto sobre a saúde laboral, elevando a ocorrência de doenças cardiovasculares, respiratórias e distúrbios associados ao estresse térmico.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho, aproximadamente 2,4 bilhões de trabalhadores no mundo são afetados anualmente por calor severo ou extremo. Esse cenário inclui desde quadros de exaustão até lesões físicas e doenças crônicas, evidenciando que a crise climática já opera como um fator estruturante das condições de trabalho.
No Brasil, o perfil dos trabalhadores mais expostos revela desigualdades históricas. Profissionais da construção civil, entregadores por aplicativo, trabalhadores da limpeza urbana, ambulantes e profissionais da enfermagem compõem os grupos mais vulneráveis. Em comum, estão a atuação em ambientes abertos ou pouco protegidos, a baixa formalização e a limitada garantia de direitos trabalhistas.
Entre os trabalhadores da limpeza urbana, os dados indicam maior gravidade. A taxa de mortalidade entre não terceirizados gira em torno de 11,75 por 100 mil trabalhadores, enquanto entre terceirizados esse número sobe para 14,2 por 100 mil, evidenciando a precarização como fator adicional de risco. A intensificação do calor atua, nesse contexto, como um agravante de condições já vulneráveis.
A sobrecarga não se limita aos impactos físicos. Estima-se que cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros apresentam sintomas relacionados à Síndrome de Burnout, caracterizada por exaustão extrema, estresse crônico e esgotamento emocional. A exposição prolongada a condições adversas de trabalho, somada às pressões econômicas e à insegurança laboral, contribui para o agravamento desse quadro.
Diante desse cenário, especialistas e movimentos sociais têm reforçado a necessidade de revisão das condições de trabalho no país. A redução da jornada semanal surge como uma das propostas em debate, articulando saúde pública e direitos trabalhistas. A PEC 148/2015, em tramitação no Senado Federal, propõe a diminuição da carga horária de 44 para 36 horas semanais. A medida ainda aguarda deliberação na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania antes de seguir para votação em plenário.

Paralelamente, iniciativas da sociedade civil buscam ampliar o debate público. Em 1º de julho, a Frente Brasil Popular e o Povo Sem Medo lançaram um plebiscito popular pelo fim da escala 6x1, com participação presencial e digital em diversas regiões do país.
O avanço das mudanças climáticas reposiciona o debate sobre o trabalho no Brasil. Mais do que uma pauta econômica, as condições laborais passam a ser compreendidas como uma questão de saúde pública e de justiça social. A intensificação do calor evidencia limites do modelo atual e pressiona por respostas que considerem, de forma integrada, clima, desigualdade e direitos.

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