ATLAS DAS BAIXADAS: A DISTRIBUIÇÃO DOS DADOS RACIAIS
- Observatório das Baixadas

- 28 de mai. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 17 de jun.
PESQUISA
A nova atualização da camada “Concentração PPI” no Atlas, reafirma o compromisso do Observatório das Baixadas com a luta contra o racismo estrutural e ambiental no Brasil.
[OBX]
NOTA
A nova atualização da camada “Concentração PPI” (População Preta, Parda e Indígena) no Atlas possibilitou visualizar a distribuição espacial desses grupos populacionais e sua relação com territórios marcados por processos de exclusão social, desigualdades urbanas e vulnerabilidades socioambientais. A metodologia baseou-se na sistematização dos dados de cor ou raça do Censo Demográfico de 2022, espacializados pelos setores censitários. Desenvolvida para facilitar a identificação de padrões territoriais de concentração da população preta, parda e indígena, a camada também amplia as possibilidades de análise ao ser combinada com outras informações disponíveis no Atlas.
1. Introdução
O Observatório das Baixadas (OBX) realizou uma nova atualização na camada “Concentração PPI” (População Preta, Parda e Indígena) no Atlas, por meio dos dados do Censo Demográfico de 2022, substituindo as informações anteriormente baseadas no Censo de 2010. A nova camada aprimora a representação espacial dessas populações, tornando mais precisa a análise de sobreposições territoriais com outros indicadores socioambientais disponíveis no Atlas das Baixadas.
Como demonstra o estudo, a agregação desses dados responde à necessidade de evidenciar os padrões interseccionais de vulnerabilização que atravessam esses grupos. O Brasil é um país marcado por um processo histórico de colonização, escravização e subalternização que estruturou a sociedade em bases racializadas, produzindo a associação sistemática entre raça, classe social e território.
O dado empírico mais recente, oriundo do Censo 2022, indica que 73,27% das pessoas residentes em comunidades vulnerabilizadas, tais como favelas, ocupações e outros assentamentos precários, são classificadas como pretas, pardas ou indígenas. Esse índice, por si só, revela a magnitude da sobreposição entre a condição racial e a experiência concreta de privação de direitos, exclusão territorial e exposição a riscos socioambientais. Além disso, diversas pesquisas em epidemiologia urbana, sociologia e geografia crítica demonstram que essas populações são desproporcionalmente afetadas por:
Políticas públicas deficitárias, especialmente em habitação, saneamento e infraestrutura.
Exposição a áreas de risco ambiental, como encostas instáveis, zonas sujeitas a enchentes ou áreas contaminadas.
Deslocamentos forçados, removendo populações de territórios valorizados e relegando-as a espaços cada vez mais precarizados.
Com isso, a agregação desses dados não é uma mera operação aritmética, mas sim um posicionamento metodológico e político, alinhado ao compromisso do Observatório das Baixadas com a justiça racial e ambiental. A utilização da categoria PPI busca também escapar das armadilhas de análises que utilizam as populações racializadas, obscurecendo as relações estruturais que conformam o padrão de segregação socioespacial brasileiro.
Além disso, a integração dessas categorias se conecta ao conceito de racismo ambiental, entendido como o processo pelo qual populações historicamente discriminadas são sistematicamente colocadas em territórios mais expostos a riscos, com menor capacidade adaptação e com menor acesso a políticas públicas de proteção. Neste sentido, a camada “Concentração PPI” constitui um instrumento que amplia a capacidade analítica e crítica do Atlas, permitindo visualizar as territorialidades racializadas e suas intersecções com outras camadas cruciais, como:
Áreas de risco ambiental severo;
Favelas e comunidades vulnerabilizadas;
Infraestruturas críticas ausentes ou degradadas.
O objetivo deste estudo foi fortalecer as análises e os debates sobre racismo ambiental, evidenciando a correlação entre a distribuição dessas populações e as áreas de vulnerabilidade socioambiental e risco climático.
2. Metodologia
A metodologia foi abordada através da sistematização dos dados de cor ou raça, referentes à população preta, parda e indígena adquiridos pelos dados geoespaciais dos setores censitários do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A partir desse procedimento, foi gerada a camada denominada “Concentração PPI” no Atlas. O processamento consistiu na agregação dos valores absolutos dessas três categorias raciais em cada unidade espacial, resultando na criação de um campo sintético, chamado “Concentracao_PPI”, que expressa o volume populacional de preta, parda e indigena por setor censitário. Após a sistematização, os dados foram georreferenciados e organizados no ambiente QGIS, respeitando os limites e códigos dos setores censitários. Em seguida, a camada foi exportada para o formato compatível com o Mapbox Studio, plataforma utilizada para a visualização interativa no Atlas.
A representação da camada “Concentração PPI” no Atlas foi cuidadosamente configurada para traduzir a intensidade populacional por meio de dois parâmetros visuais combinados: o tamanho e a cor dos círculos, ambos baseados no campo Concentracao_PPI. O tamanho dos círculos varia de forma contínua conforme a quantidade absoluta de pessoas pretas, pardas e indígenas por setor censitário, com pontos de referência ajustados entre 100 e o valor máximo da base, 3.654 pessoas. Esse ajuste permite destacar visualmente as áreas de maior concentração populacional, sem perder a legibilidade das regiões com valores intermediários.
Simultaneamente, a coloração dos círculos segue uma paleta progressiva, que vai do bege claro ao marrom escuro, também em escala contínua e exponencial, enfatizando visualmente os setores com maior presença de população PPI. A interpolação exponencial foi adotada justamente para acentuar os contrastes nas faixas mais elevadas, evitando que concentrações muito altas fossem suavizadas na visualização.
3. Resultados e discussão
O principal resultado foi a representação da distribuição dos dados raciais no Atlas, conforme a Figura 01. A visualização da camada “Concentração PPI” foi desenvolvida para facilitar a identificação rápida de padrões territoriais de concentração PPI e potencializa a análise interativa ao ser combinada com outras camadas disponíveis no Atlas.
Figura 01 - .A distribuição dos dados raciais no Atlas.

Fonte: Observatório das Baixadas (2025)
Além disso, algumas considerações sobre a escolha círculos com variação simultânea de tamanho e cor visa facilitar a identificação de setores com maior densidade PPI, sem perder a referência espacial dos limites censitários. Essa configuração permitiu ao usuário do Atlas comparar as áreas com diferentes níveis de concentração PPI e também sobrepor essas informações com outras camadas críticas, como favelas e comunidades e zonas de risco ambiental severo. Na Figura 02 apresenta a sobreposição das camadas de distribuição raciais e favelas e comunidades no Atlas.
Figura 02 - .As camadas de distribuição raciais e favelas e comunidades no Atlas.

Fonte: Observatório das Baixadas (2025)
4. Conclusão
Portanto, a plataforma amplia seu potencial como ferramenta para o monitoramento, planejamento e incidência política. Sendo assim, o uso esperado desta atualização que pretende contribuir para:
Fortalecer as análises sobre racismo ambiental.
Apoiar formulação de políticas públicas orientadas para a equidade socioambiental.
Qualificar ações comunitárias e estratégias de mitigação de riscos em territórios vulneráveis.
Fomentar pesquisas acadêmicas e iniciativas de advocacy sobre justiça climática e racial.
5. Referências
ATLAS DAS BAIXADAS. (2026). Plataforma digital de visualização e análise territorial. Belém: Observatório das Baixadas. Disponível em: https://atlasdasbaixadas.netlify.app/. Acesso em: Mai/2026.
OBSERVATÓRIO DAS BAIXADAS. Nota metodológica - Camada racial do Atlas das Baixadas. Belém: Observatório das Baixadas, 2026. Disponível em: https://osf.io/nzc84/files/osfstorage. Acesso em: Mai/2026.

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