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A COP30 PASSOU, A DEVASTAÇÃO CONTINUA

  • Foto do escritor: Observatório das Baixadas
    Observatório das Baixadas
  • 2 de fev.
  • 5 min de leitura

Atualizado: há 6 dias

A privatização dos rios amazônicos e os impactos do Decreto nº 12.600/2025 sobre povos tradicionais e territórios da Amazônia.


 [PRESS RELEASE]

NOTA

Mesmo após o encerramento da COP30 e dos compromissos assumidos em defesa do clima e da biodiversidade, o Governo Federal publicou o Decreto nº 12.600/2025, incluindo mais de 3 mil quilômetros de hidrovias amazônicas no Programa Nacional de Desestatização. A medida reacendeu debates sobre justiça socioambiental, consulta aos povos tradicionais, privatização da infraestrutura fluvial e os impactos da expansão logística sobre comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas. Este artigo analisa os principais desdobramentos do decreto e suas implicações para a Amazônia.


O DECRETO 12.600/2025

Sem a consulta pública prometida na COP 30, o Governo Federal incluiu 3.056 km de hidrovias amazônicas no Programa Nacional de Desestatização, e aprofunda um modelo econômico que gera lucros bilionários para empresas multinacionais e desigualdades na região que registra alguns dos piores indicadores sociais do Brasil.


Mapa mostrando as regiões da Amazônia Legal mais impactadas pelo decreto, destacando os rios e bacias Madeira, Tapajós e Tocantins, além de territórios indígenas afetados.
Mapa mostrando as regiões da Amazônia Legal mais impactadas pelo decreto, destacando os rios e bacias Madeira, Tapajós e Tocantins, além de territórios indígenas afetados.

​Cerca de 10 milhões de brasileiros vivem nessas regiões, incluindo povos indígenas cujos territórios não foram demarcados, comunidades quilombolas sem titulação e populações ribeirinhas cuja subsistência depende diretamente das águas.

A decisão provocou a ocupação indígena no terminal da Cargill em Santarém desde 23 de janeiro de 2026 e expõe contradições profundas entre o discurso ambiental das esferas governamentais brasileiras e sua prática de desenvolvimento'. A ocupação, que reúne 14 comunidades originárias da região, segue firme na busca pela revogação imediata do decreto. O movimento indígena já declarou que só desocuparam mediante a uma ação definitiva do Governo Federal pela revogação total do decreto.


​Somente a dragagem do Rio Tapajós, no trecho Santarém-Itaituba, terá um investimento público de R$ 74 milhões que será feito pelo governo federal com o objetivo de alavancar as grandes empresas exportadoras de commodities, duas em especial: a estadunidense Cargill (porto em Santarém) e a holandesa Bunge (porto em Itaituba). A dragagem interfere na dinâmica natural dos rios, muitas vezes 'acordando' poluentes no fundo dos rios, que acabam entrando na cadeia alimentar dos peixes, mudando a dinâmica alimentar e o risco à saúde da população da região.


​No dia 6 de fevereiro, o Governo decidiu suspender o processo de contratação de uma empresa para realizar a dragagem do Rio Tapajós. Mesmo com a suspensão do Edital, uma série de violações graves já foram realizadas. O edital atual avançou sem licenciamento ambiental, mesmo o PADMA (Plano Anual de Dragagem) admitindo explicitamente que não existem condições ambientais. Uma dragagem emergencial já foi realizada entre 2024 e 2025 em resposta à forte estiagem daqueles anos, porém foi executada com graves irregularidades. O procedimento emergencial, feito sem consulta e sem licenciamento, alterou a foz de um igarapé próximo, piorando o isolamento de comunidades que vivem às margens dele.

Fonte: GT INFRAESTRUTURA E JUSTIÇA SOCIOAMBIENTAL. DRAGAGEM E A HIDROVIA DO RIO TAPAJÓS: UMA ANÁLISE CRÍTICA. NOTA TÉCNICA. BRASÍLIA, 4 DE FEVEREIRO DE 2026.

​A região possui uma das maiores concentrações de portos de grandes cargas na Amazônia Legal. O decreto visa beneficiar as empresas que atuam nessa região, com o objetivo de aumentar seus lucros. E você vai pagar a conta para eles!"


Mapa mostrando a concentração de portos de grandes cargas na Amazônia Legal, destacando a localização das zonas urbanas de Itaituba e Santarém, portos hidroviários privados e públicos, territórios indígenas, bacias e rios afetados.
Mapa mostrando a concentração de portos de grandes cargas na Amazônia Legal, destacando a localização das zonas urbanas de Itaituba e Santarém, portos hidroviários privados e públicos, territórios indígenas, bacias e rios afetados.

Enquanto o Ministério dos Povos Indígenas emitiu nota reconhecendo a legitimidade das preocupações e afirmando que 'Tapajós é vida, território e memória', a CESPORTOS-PA elevou o nível de segurança do terminal para grau 2 (Portaria Cesportos-PA nº 1), autorizando ação integrada da Polícia Federal com o Batalhão de Missões Especiais da PM.


Na concessão mais avançada (Rio Madeira), 80% da receita da concessionária virá de recursos públicos. O principal beneficiário direto da melhoria logística é o setor agroexportador, com empresas como Cargill, Bunge, Amaggi, ADM e Louis Dreyfus, que obtêm redução de frete de 24% a 40%.

A justificativa repousa inteiramente em benefícios indiretos: competitividade das exportações, redução do 'Custo Brasil' e desenvolvimento regional, mas não existem estudos públicos que quantifiquem o retorno fiscal líquido dessas mudanças.


Fundada e de propriedade da família Cargill-MacMillan (Estados Unidos), a estação de Santarém, hoje ocupada pelos indígenas, operou de 2003 a 2010 sem Estudo de Impacto Ambiental. Fonte: Ministério Público

Segundo o Mighty Earth (2017), 30% do cacau da empresa na Costa do Marfim provinha de parques nacionais e zonas de proteção ambiental. Em 2005, 6 crianças do Mali entraram com uma ação nos EUA acusando a empresa de trabalho infantil.

Em 2025, as famílias donas receberam dividendo recorde de US$ 1,5 bilhões após lucro subir 44%.


​Fundada nos Países Baixos em 2025, a empresa de capital aberto registrou receita superior a US$100 bilhões anuais, mais de 500 bilhões de reais.

Segundo o Mighty Earth (2024), a empresa esteve ligada ao desmatamento de 224.181 hectares de floresta, sendo 25% em aréas protegidas, o que representa um “Rio de Janeiro e meio” em extensão.

Ainda segundo a investigação, em 2023 a Bunge (BP Bunge Bioenergia) foi acusada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) de submeter 212 trabalhadores a condições análogas à escravidão em usinas de cana em Goiás e Minas Gerais.


​O Decreto 12.600/2025 materializa uma concepção de progresso que trata rios como infraestrutura logística e territórios tradicionais como obstáculos ao crescimento.

É a mesma lógica que, desde a ditadura militar, construiu a BR-163 cortando territórios indígenas, inundou aldeias com hidrelétricas e transformou a floresta em pasto. No fim, a região segue com os piores indicadores socioeconômicos do Brasil.


Mapa comparativo do Brasil mostrando o Índice de Progresso Social para 2024 à esquerda e a Renda Domiciliar Mensal per Capita de 2022 à direita. As cores variam para indicar diferentes níveis de progresso social e de renda em diferentes regiões do país.
Mapa comparativo do Brasil mostrando o Índice de Progresso Social para 2024 à esquerda e a Renda Domiciliar Mensal per Capita de 2022 à direita. As cores variam para indicar diferentes níveis de progresso social e de renda em diferentes regiões do país.

O Decreto nº 12.600/2025 evidencia os desafios de conciliar desenvolvimento econômico, proteção ambiental e garantia de direitos territoriais na Amazônia.


Embora os projetos hidroviários sejam apresentados como instrumentos de modernização logística, seus impactos sociais e ambientais continuam sendo objeto de intensos debates. A ausência de processos amplos de consulta, os potenciais efeitos sobre comunidades tradicionais e as incertezas quanto aos benefícios sociais efetivos reforçam a necessidade de ampliar a transparência e a participação pública nas decisões relacionadas ao futuro da região.


A construção de estratégias de desenvolvimento para a Amazônia exige considerar não apenas indicadores econômicos, mas também a proteção dos ecossistemas, o respeito aos direitos dos povos tradicionais e a promoção da justiça socioambiental.



REFERÊNCIAS


BRASIL. Decreto nº 12.600, de 2025. Dispõe sobre a inclusão de hidrovias amazônicas no Programa Nacional de Desestatização.


GRUPO DE TRABALHO INFRAESTRUTURA E JUSTIÇA SOCIOAMBIENTAL. Dragagem e a hidrovia do Rio Tapajós: uma análise crítica. Nota Técnica. Brasília, 2026.


MINISTÉRIO DOS POVOS INDÍGENAS. Notas públicas sobre os impactos da expansão hidroviária na Amazônia. Brasília, 2026.


MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL. Documentos e manifestações relacionadas aos projetos hidroviários amazônicos.


MIGHTY EARTH. Relatórios sobre cadeias globais de commodities agrícolas e impactos socioambientais. 2017–2024.

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